Nosso estrago não é de hoje

carinhômetro

Depois de uma gigantesca ausência, diretamente de Fortaleza, meu querido amigo Pablo volta a noa agraciar com uma participação aqui no musique!

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A gente enverga mas não quebra. Isto é qualquer coisa que se diz depois de um coice, de quem espera recobrar o prumo após um golpe do destino. Mas e quando a bigorna não sai da sua cabeça? Como estarão as coisas vistas deste eterno tino penso? Trago o peito intumescido de uma selva de gêneros nunca por mim cultivados, uma mata cerrada de daninhas e pedregulhos que se confundem com as paredes dos átrios, de tão incrustrados. Hoje percebo melhor o quanto a minha criação reflete as formas como enxergo a vida e, por suposto, como restringe os condicionantes, neste espaço que me escapa, dos meus vários estados de saúde. Por isso, regulo opiniões antigas, pondero melhor o meu espanto com o lugar em que nos vejo agora – sul-americanos de venas abiertas, nativos discípulos-mestres herdeiros da tradição, sob progressivo refinamento, das chamadas slavery skills, às quais nos aplicamos uns aos outros sem o menor pudor e a cada vão momento.

Sinembargo parecía que todo se iba a acabar
Con la distancia mortal que separó nuestras vidas
Realizaron la labor de desunir nuestras manos
Y apesar de ser hermanos nos miramos con temor
Cuando pasaron los años, se acumularon rencores
Se olvidaran los amores, parecíamos extraños.

 

Pablo Milanés, Canción por la unidad de Latinoamerica

Uma das muitas pecinhas no mosaico de nuestra historia común, feito o balão que pedíamos para cair em nossas palmas quando crianças e depois nos arrependíamos, deu de acontecer aqui neste pedaço de sertão que dá pro mar, na Fortaleza de Nuestra Señora de la Asunción, de colonização portuguesa mesmo. Hoje, disputando o pódio de quinta capital mais desigual em renda do mundo, sob o comando de novos coronéis e tropas de jagunços, seguimos repartindo uma cidade triturada, um Estado débil, que ainda se presta a discutir e se retorcer sobre conjecturas de prioridades para a destinação dos escassos reservatórios de água.

Outro dia, num escape frustrado a esta suspensão por tempo indeterminado de direitos a que as jornadas de junho nos conduziram, perguntávamo-nos num bar que seria dos exames de corpo de delito se instrumentos tivessem para avaliar traumas psicológicos, sobretudo, nas cabeças dos manifestantes mais jovens. Referi-me à minha criação porque acredito que me criei amparado por redomas, várias delas, e vejo que o desconforto desses últimos meses é nada mais que um extravasamento dos estados de exceção nucleares que mantinham suas tensões e suspensões de direitos e cidadania restritos aos limites das periferias. O desamparo ou a inclusão das classes médias às fronteiras de uma sociedade marginal, porque mantida à margem, foi possivelmente a ruptura da última dessas redomas. Apresento-lhes a música de Pedro Leone e os Corações Gelados, meus irmãos de criação e de convívio, apesar das posturas estéticas diametralmente opostas, para tentar fechar este possível ponto consensual: nosso estrago não é de hoje.

“É a melhor época de nossas vidas quando temos as almas corrompidas.” Danos Escolares

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