Abre alas e fecha aspas

Música meiguinha? Acho que não. A banda carioca ‘Letuce’ não passa muito perto disso, apesar dessa música ser uma fofura. Conheci o som deles a muito pouco tempo e, devo admitir, fui conquistada pelo excelente disco de cover que eles fizeram, o “Couves”. Couve, Letuce, got it? Bom, as versões de pagodes (Poderosa e Que se chama amor – prometo um dia postar uma delas!), que nunca passaram muito perto dos meus ouvidos viraram meus hits dor-de-cotovelo. Depois fui conhecer o disco deles de 2009, o “Plano de Fuga Para Cima dos Outros e de Mim”. Pronto, virou paixão.

Hoje fui procurar algo sobre a banda pra colocar aqui, achei um release bem interessante, escrito por Arthur Braganti. Bate bem com o que me foi dito por um amigo que foi ao show deles:

E Letuce irrompe na arena. Amazona de proporções totêmicas, Letícia Novaes finca as longas pernas no piso, agarra com as duas mãos o microfone/lança, vira o rosto pro partner Lucas Vasconcellos que carrega nos ombros e nas mãos o peso daquela que é para Patti Smith a única arma de revolução, ‘this is the only weapon we need to revolution! An electric guitar’ gritou ela num palco carioca. Letícia estava lá e escutou e disse glória! Letícia é atriz e rockeira-bluseira-bacante. Lucas é guitarrista e maestro e investigador inquieto. Os dois, carametades, se somam a comparsas de altíssimo nível para um desfile de canções-jóias diversas, de quem saca além da tropicália, transa Dalva de Oliveira e Courtney Love, galopa de cavalinho azul pelo Leblon todo aceso da Marina, e pela Tijuca swingada dos erasmos, jorges e afins: sem pastiche, mas com pistache. Letuce quer gozar, mas Letuce não quer só prazer, Letuce quer prazer mas quer revolução, e isso não é punk demodê, nem teenager, nem ingenuo – ainda que possa ser tudo isso ? é o gesto generoso. O show é mais que um happening, cada glitter nos olhos, cada imagem projetada na banda, cada serpente cintilante de luz enroscada nos pedestais de micfone, cada verso safado em francês, cada verso embriagado de amor, cada nota dissonante do coro dos contentes é parte de um espetáculo maior que e é total, porque ?cada parte é um todo?. No palco, subversivos com elegância, operam aquela mágica que é quase um milagre, e estar presente e participar dela um afago pros bem-aventurados de plantão : faz gozar com outras palavras, principio do deleite inconformista, que adoça a boca e perturba o sossego. Quando a gente imagina que o cuidado e a minúcia na orqeustração desse espetculo de ruídos, melodia, narrativa, luzes e marcações cências é definitivo, vem a surpresa: no show seguinte eles entregam à platéia o barato de organizar o varieté: a platéia adora e entra no jogo de cara, gritando os número das canções a serem ordenadas ali. O casal, do palco, generoso, convoca o púlbico a criar junto, Letícia fala ?é quase um talk show?, acham careta público passivo, solicitam engajamento, como que lembrando que o espetáculo está vivo, e que ninguém sai de bode da farra sofisticada, orgânica, diversa e transadíssima do Letuce. (Hai) Kai o pano. Letuce saúda o povo e pede passagem! Abre alas e fecha aspas.

Deixa com água na boca, né? Então vai lá, mata a vontade:

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